Light adota estratégia digital contra perdas

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Fonte.: Valor  – Por Rodrigo Polito | Do Rio

A elétrica fluminense Light vai utilizar tecnologia digital para atacar um antigo problema: as perdas de energia. A ideia é aplicar novas ferramentas a partir de dados de perfil de consumo dos seus 4 milhões de consumidores para identificar com maior precisão os locais onde ocorrem furtos e fraudes de energia e, principalmente, selecionar as localidades que serão inspecionadas e regularizadas prioritariamente.

Considerada o “calcanhar de Aquiles” da Light, a perda de energia alcança quase um quarto de todo o volume fornecido pela distribuidora. O problema tem forte relação com o drama social da região metropolitana do Rio de Janeiro. Em áreas de risco, dominadas pelo tráfico e milícias, as perdas de energia ultrapassam a marca de 80%. Nas áreas em que é possível atuar, a companhia tem índice de perdas de 14,88%.

“Há muito mais consumidores fraudando do que turmas que temos para inspecionar. Com inteligência artificial, estamos colocando muito mais inteligência para escolher quais consumidores vamos inspecionar”, afirmou ao Valor o diretor comercial da Light, Marco Antonio Vilela.

Segundo ele, a principal mudança é que, historicamente, a empresa priorizava a inspeção de consumidores que tinham maior potencial de volume de energia recuperável. Com a utilização de novas tecnologias (inteligência artificial e big data), a companhia passou a priorizar a inspeção de consumidores em que há um maior potencial de recuperação de receita.

“Começamos a olhar o que é mais atrativo e primordial, buscar o equilíbrio entre atuar na perda e efetivamente arrecadar o que faturamos de cobrança retroativa”, explicou Vilela.

A estratégia começou a ser adotada no fim do ano passado e, segundo o diretor, já demonstra resultados. “Os números de 2019 já mostram uma melhora sensível”.

A Light ainda não divulgou indicadores deste ano. A elétrica fechou 2018 com um volume de perdas de 23,95%, ante 21,92% no fim do ano anterior e 3,33 pontos percentuais acima do patamar regulatório estipulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

A utilização de tecnologia digital não se restringe ao combate às perdas. A Light está investindo na aplicação dessas ferramentas para melhorar o atendimento aos clientes, reduzir custos operacionais e aumentar a receita. Na prática, são formados “clusters dinâmicos”, a partir de dados dos usuários, para oferecer soluções mais adequadas de cobrança de faturas vencidas e de renegociação de dívidas para cada cliente específico. Apenas no sistema de informação, a Light está investindo cerca de R$ 30 milhões.

A companhia também espera com isso uma redução da judicialização de processos. Projeto piloto feito pela empresa no último bimestre de 2018 indicou um aumento de 71% dos casos em que a recuperação da receita e o fornecimento de energia ao cliente foram equacionados em até quatro dias, evitando o acionamento da Aneel e da Justiça.

“Uma das estratégias é transformar a distribuidora em uma empresa digital”, afirmou o executivo, que assumiu o cargo em setembro do ano passado.

Engenheiro elétrico, Vilela está em sua segunda passagem pela Light. A primeira foi de 2001 a 2014. Mais recentemente foi diretor de Patrimônio e Energia da Oi. Segundo ele, a inspiração para a estratégia de digitalização da Light vem de empresas de telefonia e do mercado financeiro.

A recuperação de receita também é fundamental para a Light reduzir seu nível de endividamento, outro motivo de preocupação nos últimos anos. No fim de 2018, a relação dívida líquida/Ebitda da empresa foi de 3,63 vezes, próximo do limite de 3,75 vezes estabelecido contratualmente com bancos credores (“covenants”). A distribuidora encerrou o ano passado com dívida líquida de R$ 8 bilhões.

Nesse sentido, a Light prepara uma captação para este semestre, com o objetivo de rolar a dívida com vencimento em 2019. O montante que a companhia pretende levantar com a operação não foi revelado, mas a dívida da empresa com vencimento neste ano é de R$ 1,884 bilhão.

“Já neste início de 2019, o mercado está muito mais positivo do que no ano passado. E fechamos o ano passado com um caixa robusto e uma dívida bem mais alongada”, disse recentemente o diretor de Finanças da Light, Roberto Barroso, ao Valor.

A posição de caixa da empresa no fim de 2018 era de R$ 1,7 bilhão, ante R$ 300 milhões observados no fim do ano anterior. O prazo médio de amortização da dívida também passou de 2,6 anos, em 2017, para 3,5 anos, em 2018. Na mesma comparação, o custo da dívida caiu de 8,70% para 5,51%.

Com o objetivo de acelerar o processo de desalavancagem, a empresa analisa opções de alteração na estrutura de capital.

“Como o endividamento é bastante elevado, pensamos em alguma outra forma mais estruturante de capital, de maneira que consigamos diminuir o tempo para essa desalavancagem, fazendo com que a companhia tenha resultados mais expressivos em um menor espaço de tempo”, disse o presidente da Light, Luis Fernando Paroli em teleconferência com analistas, em março.

“Temos mais de uma possibilidade na forma de equacionamento desse problema [o alto endividamento]. E vamos, ao longo do ano, trabalhar nessas opções para que possamos ter uma solução mais estruturante para a companhia”, acrescentou.

A Light é um dos principais ativos do plano de desinvestimentos da estatal mineira Cemig, que possui 49,99% de participação da empresa. Em 2018, houve uma tentativa de oferta secundária de ações da elétrica fluminense, que seria ancorada pela gestora GP Investments. A operação, no entanto, não se concretizou.

Outro acionista relevante da Light é a BNDESPar, braço de participações do BNDES, com 9,39%.

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